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Almasenior - Rio Frio

14-05-2011 00:00

Pelos carreiros da herdade, outrora uma das maiores e mais produtivas herdades agrícolas do país, as pegas e as lavercas esvoaçavam por entre cardos e arbustos e iam empoleirar-se nas silvas mais próximas, em busca de algumas sementes. Pousados nos postes da vedação, os papa-moscas cinzentos, competiam num coral de bem cantar enquanto um bando de perdizes, aves raras por estas paragens, assustadas, levantava voo para os lados do campanário onde um casal de cegonhas recém chegadas ensaiam gestos de rara ternura, perante a azáfama habitual das gentes do campo, das gentes que se deitam cedo e cedo estão acordadas.

As vacas, os porcos, as galinhas, os coelhos e a terra, são tudo o que têm para além do orgulho de quem trabalha e vive por prazer numa das mais belas localidades da Freguesia de Pinhal Novo: Rio-Frio. Terra de tradição, terra de vinho, de toiros, de palácio, terra de isto e mais aquilo. Um confim de terra que junta a serenidade, marcada pela forte tradição vitivinicola do início deste nosso século. Hoje, representa um encontro marcado com o outro lado do tempo.

Ir a Rio Frio e não ir ao Palácio é como ir a Roma e não ver o papa. O edifício foi mandado construir por António Santos Jorge, sobrinho do maior latifundiário português do século passado: José Maria dos Santos. Quis o destino que o rico proprietário não tivesse filhos, a sorte da fortuna acabou por bater à porta dos seus sobrinhos. Maria de Lurdes Lupi D'Orei, neta de António Santos Jorge, é a actual proprietária da casa senhorial construída no nascer do Século XX e transformada para turismo de habitação nos anos noventa. Se existem dúvidas sobre a autoria do projecto da casa, certa é a autoria dos painéis de azulejos que envolvem a casa: Jorge Colaço, nome grande da azuleijaria portuguesa.

Todo o espirito da casa está ligado à agricultura, onde se destaca, na sala de jantar, a magnífica representação do ciclo do vinho e em redor os retratos do quotidiano da vida das pessoas de Rio Frio, um passaporte com destino marcado ao outro lado do tempo.

Do lado de lá do tempo sabemos que fora uma das maiores e mais produtivas herdades agrícolas do país. Havia escola, hospital e sociedade recreativa para quem lá trabalhava, e eram muitos. Herdade que chegou a perfazer uma área de 16 mil hectares onde José Maria dos Santos mandou plantar seis milhões de videiras, numa altura em que a produção estava em crise. Ganhou a aposta mas aquela que fora a maior vinha do mundo foi dando lugar ao montado de sobro, a imagem que ainda permanece. Francisco Garcia, o proprietário actual, adquiriu a Herdade há dez anos com intenção de formar um complexo agro-industrial. Organizou a Casa Agrícola e a Sociedade Agrícola de Rio Frio. A vinha voltou à Herdade e grande parte dos vinhos da Região de Palmela são produzidos nas castas de Rio Frio, para orgulho dos 150 trabalhadores que trabalham e vivem na Herdade.

Rio Frio sabe que não pode viver só da produção agrícola. O povo se calhar, tinha essa vontade, mas os traços futuros passam pelo turismo. Para já, a localidade oferece apenas atractivos naturais, continuando a ser um dos locais preferidos das gentes do concelho para a realização de piqueniques. As cavalariças e os seus magníficos exemplares lusitanos, ferro Rio Frio, são outras das atracções do sítio, visitado regularmente por grupos de turistas na sua maioria estrangeiros. Adivinha-se mais mudanças… do Aeroporto falam com medo, com o receio e com uma tristeza miudinha. De uma possível elevação a freguesia… poucos acreditam que seja possível nos próximos tempos. Estão mais preocupados com o que o campo vai produzir, com a qualidade do vinho, com a preservação do sossego. A tarde descaía límpida. Na vasta cúpula do céu, penachos de nuvens alvejaram, imóveis. Acesas naquela explosão rubra do ocaso, as arestas dos campos franjavam-se de púrpura e ouro, na decoração mágica dos poentes. Começava a cair sobre a aldeia a larga paz tranquila dos crepúsculos, e uma quietação dulcíssima e vagamente melancólica entrava para adormecer a natureza para o grande sono reparador da noite.

Paulo Jorge Oliveira in Jornal do Pinhal Novo, Ano 1, Nº1